Silenciosa, comum e muitas vezes negligenciada, a hipertensão arterial segue como um dos principais gatilhos para duas das doenças que mais matam no país: infarto e Acidente Vascular Cerebral (AVC).
Só em 2025, o Brasil registrou 177.810 mortes por infarto e 104.363 mil por AVC, segundo levantamento da Organização Nacional de Acreditação (ONA), com base no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde (DATASUS).
Uma doença silenciosa e perigosa - A hipertensão é considerada uma doença silenciosa justamente porque, na maioria dos casos, não apresenta sintomas. É um dos principais fatores de risco para doenças cardiovasculares no mundo, como infarto e AVC. “Ela pode causar lesões progressivas nos órgãos-alvo, como coração e cérebro, mesmo antes do surgimento de sintomas. Infelizmente, muitos pacientes desconhecem que são hipertensos e acabam recebendo o diagnóstico apenas após um evento mais grave”, alerta o cardiologista e membro da ONA, dr. Paulo Meirelles.
O especialista ressalta, no entanto, que a hipertensão arterial é considerada um fator de risco modificável. “Quando identificada precocemente e devidamente acompanhada, é possível reduzir de forma significativa o risco de complicações ao longo do tempo, mas não deve ser subestimada justamente por seu caráter silencioso”.
Para o doutor, a identificação precoce é uma das estratégias mais importantes para prevenir eventos cardiovasculares graves e reduzir mortes evitáveis. “Quando o paciente descobre a hipertensão tardiamente, muitas vezes já existe algum grau de comprometimento cardiovascular. Por isso, o diagnóstico precoce faz toda a diferença”.
Como identificar um AVC precoce? O SAMU destaca a escala de Cincinatti utilizada como uma ferramenta de reconhecimento precoce. “É importante sempre pedir para a pessoa sorrir, levantar os braços e falar. Qualquer sintoma novo como assimetria na face durante um sorriso, perda de força em um dos braços ou fala enrolada, o indivíduo deverá procurar atendimento de urgência”, alerta o doutor.
Quando começar a tratar - As Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial, atualizadas em 2025 por sociedades médicas (Cardiologia, Hipertensão e Nefrologia), reforçam que níveis de pressão arterial acima de 120 por 80 mmHg já são associadas ao aumento do risco cardiovascular, inclusive em indivíduos aparentemente saudáveis. “A aferição da pressão arterial é fundamental, mesmo na ausência de sintomas. A prevenção começa com acompanhamento, mudança de hábitos e controle dos fatores de risco”, explica o doutor.
AVC: fatores de risco e sinais de alerta - O AVC está diretamente associado a fatores como envelhecimento, hipertensão, diabetes, tabagismo, sedentarismo, estresse, colesterol elevado e histórico familiar. Pessoas acima de 55 anos têm maior risco, especialmente quando acumulam essas condições.
“É uma soma de fatores. A hipertensão, sozinha, já é um risco importante, mas quando combinada com outros hábitos e doenças, o perigo aumenta exponencialmente”, destaca o dr. Paulo.
Tipos de AVC - Existem dois tipos principais de AVC:
- Isquêmico: causado pela obstrução de uma artéria, impedindo a chegada de oxigênio ao cérebro (cerca de 85% dos casos)
- Hemorrágico: ocorre quando há rompimento de um vaso cerebral, com sangramento (mais grave e com maior risco de morte)
Falhas no atendimento ainda agravam casos de AVC -Apesar de ser uma condição tratável, o AVC ainda enfrenta falhas importantes no cuidado em saúde e muitas delas evitáveis.
Na fase inicial, é comum a dificuldade em reconhecer os sinais ou até a sua subestimação, além da confusão com outras condições, como enxaqueca ou vertigem. Também há atrasos na realização de exames essenciais, como a tomografia, o que compromete decisões rápidas.
Durante o atendimento, um dos principais problemas é a perda do tempo ideal para uso de medicamentos que dissolvem o coágulo, além do controle inadequado da pressão arterial e da falta de encaminhamento para procedimentos que podem retirar o coágulo do vaso, quando indicados.
“Cada minuto perdido no AVC significa perda de função cerebral. Quando o atendimento falha, o impacto pode ser irreversível”, alerta o cardiologista.
Na internação, persistem falhas como erros de medicação, monitoramento insuficiente e problemas na comunicação entre equipes, além da prevenção inadequada de complicações, como pneumonia e trombose.
Infarto: sinais que não podem ser ignorados - Os principais sintomas de infarto incluem dor ou pressão no peito — que pode irradiar para braço, mandíbula ou costas — além de falta de ar, suor frio, náuseas e tontura.
Em alguns casos, os sinais podem ser confundidos com problemas digestivos, o que atrasa a busca por atendimento. “Desconfortos abdominais, como náuseas e indigestão, também podem indicar infarto e não devem ser ignorados”, alerta o cardiologista. “Muitos pacientes ainda chegam tarde ao hospital porque não reconhecem os sinais. Isso reduz drasticamente as chances de recuperação”, complementa.
Erros evitáveis no cuidado ao infarto - Entre as falhas mais comuns estão o atraso no atendimento, problemas no uso de medicamentos, diagnóstico tardio e falta de continuidade do cuidado após a alta hospitalar.
Esses fatores impactam diretamente a evolução do paciente e aumentam o risco de complicações e morte. “Não basta tratar o evento agudo. É fundamental garantir continuidade do cuidado para evitar novos episódios”, destaca.
Acreditação: organização que salva vidas - A adoção de processos estruturados de qualidade e segurança — como os modelos de acreditação em saúde, a exemplo da Organização Nacional de Acreditação — tem impacto direto na prevenção de eventos graves, como infarto e AVC.
Instituições acreditadas operam com protocolos rigorosos que permitem identificar precocemente pacientes de risco e agir com rapidez em situações críticas. Isso se traduz em monitoramento mais eficiente, atendimento padronizado, redução de erros e maior integração entre equipes.
Mais do que processos, a acreditação fortalece uma cultura de segurança, na qual sinais não são ignorados e decisões são baseadas em evidências.
“Quando falamos de infarto e AVC, tempo e precisão fazem toda a diferença. Serviços organizados conseguem agir mais rápido, reduzir complicações e salvar vidas”, conclui.

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