PARÁ: Como jardins planejados podem reduzir o impacto das fortes chuvas na cidade de Santarém


Em Santarém, o volume intenso de chuvas durante o inverno amazônico impõe desafios constantes à infraestrutura urbana. Diante das enxurradas que sobrecarregam as vias, o uso de jardins drenantes surge como uma solução de engenharia verde capaz de atuar diretamente na infiltração da água e na preservação do solo.

De acordo com a engenheira florestal e especialista em paisagismo, Carla Matos, docente do curso de Arquitetura e Urbanismo da UNAMA Santarém, o jardim vai muito além da peça decorativa. Tecnicamente, ele funciona como um sistema vivo de regulação térmica e drenagem. “No inverno amazônico, áreas verdes atuam como zonas de absorção hídrica, reduzindo o escoamento superficial e protegendo a estrutura do solo contra a compactação e erosões”, explica.
Conceito de Cidade Esponja

A eficácia dessa solução está ligada ao conceito de “Cidade Esponja”, que foca na retenção e infiltração local da água da chuva. Segundo Carla, cada jardim residencial planejado funciona como uma microesponja urbana. “Quando somamos centenas ou milhares desses espaços, reduzimos drasticamente o volume de água que chega às ruas e galerias pluviais ao mesmo tempo, o que diminui enchentes e preserva o lençol freático”, destaca a especialista.

A opção comum de concretar quintais para facilitar a limpeza traz riscos que impactam a residência e a vizinhança. A engenheira aponta três problemas principais: o impacto hídrico, pois a água não infiltra e sobrecarrega as casas vizinhas; o estrutural, já que o acúmulo de água pode pressionar fundações e muros; e o térmico, pois superfícies cimentadas irradiam calor e elevam a temperatura interna das casas.
Técnica e preparação do solo

Para que um jardim seja um dreno eficiente, não basta apenas plantar grama sobre solo compactado. Carla Matos explica que é necessária uma estratificação em camadas:
 
Camada de base: Brita ou seixo;
Camada intermediária: Areia grossa;

Camada superior: Solo estruturado rico em matéria orgânica.
“Essa técnica melhora a infiltração, evita o encharcamento e mantém a oxigenação das raízes”, detalha a engenheira.Uso da flora regional

A flora amazônica oferece espécies altamente eficientes para esse sistema. Plantas com raízes densas e profundas, como helicônias, alpínias, marantas e palmeiras (açaizeiro e bacabeira), são ideais. “Plantas com raízes fasciculadas ajudam a ‘costurar’ o solo, reduzindo deslizamentos e erosões em terrenos inclinados”, reforça Carla.

Além da drenagem, o paisagismo ajuda a combater o excesso de umidade e mofo nas paredes, comum nesta época do ano. A criação de zonas de respiro com canteiros drenantes e o afastamento correto da vegetação evitam que a água se acumule junto à estrutura da edificação.
Soluções para áreas menores

Para quem dispõe de pouco espaço, a engenheira afirma que é possível aplicar o paisagismo funcional. “Jardins de chuva compactos, pisos drenantes e microbacias de infiltração já contribuem significativamente. O importante é o planejamento técnico do sistema, e não o tamanho do espaço”, pontua.

Como conselho final para quem está construindo ou reformando em Santarém, a especialista recomenda que o jardim seja tratado como parte da engenharia da casa. “Planeje a drenagem antes da obra terminar, evite impermeabilizar todo o terreno e invista em solo bem preparado. Beleza e função devem caminhar juntas para manter a casa seca e fresca”, conclui Carla Matos.

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